O corpo pesado, a cabeça cheia, dores insuportáveis por um homem que sente o amargo ressecar das flores do outono. Amargurado! Eu, não penso mais, não sonho mais, apenas tento esvaziar a dor de tê-la amado. Carlos Sabrosa é um homem de paixões extremas, assim como o vermelho sangue da rosa, assim é Carlos Sabrosa. Vive num mundo entre a autoexpressão e a autodestruição. É carrasco da própria pena, senhor das tristezas e da sua amargura. Esta de luto porque não vive mais… apenas vagueia, vareja como uma mosca suja e fétida. Sobre as luzes moribundas das ruas tão cheias de nada quanto ele, apenas passos, cigarros e uma sensação de vazio sem fim.

Quem sabe quantos passos dera naquela noite, quantos goles em copos vazios, quanto tempo perdeu ao se alongar pela madrugada na compania de três cigarros e uma dama de rugas nas faces. Seu corpo já não possuia a beleza de outrora, mas funcionava até que bem para sua farta idade, quem se importa quantas velas foram apagadas, portanto que distraia meu olhar por instantes, prometo que não vou reclamar do preço. Julga – se um trabalhador pelo tempo na profissão, digamos que ela já poderia se aposentar. Realmente eu fico chorando e você sai sorrindo, tirou a sorte grande… Meu bem, ganhou um bom dinheiro e se divertiu às minhas custas, me enoja esses pensamentos sórdidos, o que posso pensar…, uma ou outra vez deve ter tirado proveito de alguém seja pela grana ou pelo corpo, do útil ao agradável.

Acendo um cigarro, pego o copo quase cheio, molho a garganta seca, debruço meu corpo sobre a varanda do hotel meia estrela e observo o comércio noturno, enquanto ela vai deixando sorrateiramente o quarto sobre as minhas costas frias. O movimento das ruas “…duas por dez… Vai ai caracol ou vai ficar se encolhendo na conchinha?”, às vezes me pergunto porque gosto tanto desta vida abutre, talvez pela emoção… Claro! Princípio básico, aumentar o meu prazer para diminuir a minha dor… Prazer, prazer, prazer, é disso que eu necessito hoje, prazer.

Descanço calmamente cinza por cinza do cigarro na varanda, brincando com meus olhos que seguem a fumaça que toma conta do corpo vazio, ponho minhas vestes, desço as escadas, dou um sorriso amarelo a recepcionista e saio para saciar a fome, de que? Eu já nem sei. Na rua, sinto amortecer dos pés que representam o cansaço pelos passos infindos, não se perde apenas o sono, ganha – se bolhas, calos e algumas angústias nestas ruas de pedra sabão.

Na esquina, avisto um letreiro em vermelho luminoso, o qual um armário de paletó guarda a frente do local, estilo daqueles que mal sabe falar consumação sem ao menos consumir uma palavra do português… Tudo bem é o seu trabalho, não é obrigado aguentar bêbados a estas horas, prefiro deixar as carícias para as profissionais. Perguntei ao próprio “quanto é a morte?”, fico grato pela sorte, respondeu em tom de sarcasmo “para você amigo? …Só se consumir três cervejas no mínimo, só para entrar”, agora sei porque noite dessas um senhor de modos simples disparara três tiros contra uma casa dessas, suprimido… Toda vontade é bandida, em tom desafinado cantarolo “tem dias que é matar ou morrer outros é melhor nem nascer…” [ ¯], ou coisa assim.

Sinto o corpo reclinar para os lados, enquanto revisto os bolsos da calça e da camisa entreaberta. Percebo que não há tantos trocados quanto havia antes da visita daquela ilustre dama, fui roubado!!! Viro de costas e deixo o segurança a balbuciar palavras que acredito não serem de amor ou argúcia. Os ponteiros do relógio exclamam que já é hora de comprar o leite e tirar as crianças da cama. Sobre o rair do dia encaro o desespero do coletivo lotado das 6h00, voltar para casa.

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Mario Luiz Costa Junior

Iniciante, recém chegado do jornalismo moleque. Estilo namoradinho da verdade. Charmoso e dengoso nas letras. Deambulante da desinversão da pirâmide invertida. Ativo e passivo no lead e sub-lead. Não dispensa ‘A história da minha vida’ com Renato Gaúcho.

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