Sabotar o Estado. A frase pode soar pretensiosa. Utópica talvez. Mas diante da onda conservadora, percebida principalmente na Câmara Federal no primeiro semestre do novo mandato dos deputados brasileiros, toda e qualquer atitude questionadora pode representar uma sabotagem. E esse foi o mote que reuniu centenas de manifestantes (a organização esperava cerca de mil pessoas) na Praça 29 de Dezembro (a Praça da Mulher nua) no centro da capital Paranaense no último sábado (04/07). A tradicional Marcha das Vadias percorreu pontos movimentados do centro angariando simpatizantes e desagradando ainda mais os conservadores.

O tímido sol do início de julho não inibiu os corpos que fizeram questão de ficar a amostra. Faixas, cartazes, pincéis atômicos, seios. As frases de efeito tinham na pele um pergaminho que unia a todas em uma espécie de tratado onde claramente podia se ler:

– Meu corpo, minhas regras!

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E assim elas iam se juntado. Mulheres, transexuais, homossexuais, namorados, namoradas, pais, mães, enfim, seres humanos batendo o pé diante da intervenção do estado nas escolhas e nos direitos de cada um de nós. Na Praça cartazes e corpos eram pintados. O carro de som (um desses que traz tele mensagens para a avó no almoço do domingo) tocava “Bom chi bom, chi bom bom bom”. Muitas risadas, gritos, até que o microfone foi pego por uma jovem militante:

Sabe o peso da cama

de quem matou o amor, não ama?

Sabe o peso da culpa

que carrega a palavra “puta”?

O amargo do sangue na boca

De quem foi obrigada a engolir porra

Carrego 24h comigo

o sal do suor azedo

na pele, de baixo da unha, na ponta dos dedos

Carrego 24h comigo

seu cheiro na minha mente

seu toque na minha mente

seu riso amarelo na minha mente

seu “você vai gostar” na minha mente

Na minha mente

Na minha mente

Na minha mente

Dizem que eu to doente

que eu tô louca

que eu sou louca

que isso é coisa da minha mente

que isso é coisa pouca

pouca coisa pra se falar

pouca coisa pra se importar

é pouca coisa

aconteceu comigo

acontece com você …

Um breve instante de silêncio e os gritos ganham mais força. Começava a sabotagem das Marchas das Vadias 2015.

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Tayna Miessa, caminhava hora carregando pincéis atômicos, hora entregando um cartaz, testando o microfone, abraçando um conhecido. A jovem, que ajudou na organização da Marcha desse ano lembrou o desafio feito pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB) durante uma entrevista recente. “O Cunha disse que leis relativas ao aborto, por exemplo, só serão aprovadas por cima do cadáver dele”. Para Miessa a Marcha faz parte de uma grande sabotagem. “Estamos juntas com as trans, as lésbicas. Tudo faz parte de um movimento maior”.

Sabotagem na política

IMG_0437No Brasil, a presença feminina na política é minúscula, e gira em torno de 10% no Legislativo, sendo que elas são pouco mais da metade da população. Desde 1997, a legislação eleitoral exige que 30% dos candidatos de cada partido sejam mulheres, mas a lei é “driblada” pelas siglas, que costumam usar candidatas “laranja” sem qualquer perspectiva de se eleger.  Nosso país ocupa hoje o 156º lugar no ranking de 188 países que avalia a representação feminina no Parlamento. Nossa política tem a mesma representatividade feminina do que alguns países do Oriente Médio.

Para a militante Anaterra Viana, candidata a deputada estadual no último pleito, cada vez que uma mulher tenta entrar na política ela está afrontando o Estado. “Cada vez que uma mulher se coloca em disputa por um cargo público ela está de alguma maneira afrontando muitos homens que não a querem lá. O machismo está impregnado em todos os setores de nossa sociedade, principalmente na política”.

Um caldeirão de reivindicações

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Uma volta na Praça durante a concentração revela que as pessoas que compareceram à caminhada ampliaram seu leque de reivindicações. Direitos femininos, respeito, questões de gênero, direito ao aborto, legalização da maconha e um não ao “Especismo”. Isso mesmo, apesar de pouco conhecido, esse termo define-se pela discriminação arbitrária daqueles que não pertencem a uma determinada espécie. A maior parte dos humanos são especistas perante os restantes animais, uma vez que os consideram seres inferiores e os colocam num patamar abaixo do seu, não lhes conferindo qualquer tipo de direitos. “Assim como o machismo, o especismo diferencia e descrimina outros seres por conta de sua espécie. Assim, muitos animais são criados apenas para o abate, para satisfazer o estômago dos humanos”, disse Joana Antunes, ativista de um movimento Vegano de Curitiba.

O machismo marcha ao lado

– Nossa, as que estão com os peitos de fora poderiam ser mais bonitas né!

– Vim só pra ver uns peitinhos!

– Quem tem cabeça boa não participa desse tipo de movimento!

Essas frases soavam como uma espécie de ladainha em quase todos os homens que encontraram a Marcha durante todo o seu trajeto. Nas portas das lojas, nos pontos de ônibus e até mesmo entre PMs que faziam a “segurança” do evento. A esse coro, somavam-se reclamações de senhoras em frente à Catedral de Curitiba, local onde as militantes fizeram um ato simbólico.

– Meu Deus que falta de respeito!

– Não acredito no que estou vendo!

– A senhora se sente representada por este movimento?

– Deus me livre!

– Mas sabe realmente do que se trata?

– Sei que é sobre mostrar os peitos!

E assim seguia a Marcha, espantando uns, revoltando outros, mas agitando a fria manhã e quebrando a cinza rotina da Capital paranaense com gritos que não representavam simples vocalizações, mas que significavam uma tentativa legitima de sabotagem do Estado reacionário e conservador brasileiro.

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Ato em frente a Catedral de Curitiba

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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