Descalço e sem camisa o menino gritava em desatinada corrida. Atrás ia o irmão menor e a eles se juntavam outros garotos. Ao chegar na varanda de casa todos se aglomeravam em volta do embrulho buscado há instantes na banca da esquina. Dentro do pacote mais uma aventura de Batman e Robin. O gibi era levantado como um troféu. Reunidos todos ouviam o dono da revistinha ler as aventuras da dupla dinâmica e gargalhavam cada que vez que ouviam o menino prodígio dizer: “Santa confusão Batman! ”.

Nas décadas de 1980 e 1990, na verdade muito antes disso já que a Marvel Comics foi fundada na década de 1930, os garotos corriam toda a semana para as bancas de revistas munidos de moedas em busca de uma nova edição do gibi do Fantasma, Demolidor, Homem Aranha, Incrível Hulk, X-Man, Batman, entre outros. A saga dos heróis, contada por meio de quadros com balõezinhos de diálogos, inundava o imaginário de meninos em todo o mundo. Hoje a concorrência é desleal. Tablets, Smartphones, Play Stations e X-Bos ocupam boa parte das fantasias infantis. Porém, o que há alguns anos era a diversão dos pequenos, hoje é xodó de adultos.

Idovino Cassol é nerd assumido. Entretanto, assim como a maioria dos amantes da “cultura nerd” de hoje, não usa óculos “fundo de garrafa”, não tem o rosto tomado por espinhas e não passa horas folheando a Play Boy da Claudia Ohana como fazia a rapaziada na metade da década de 1980. Cassol, como é mais conhecido, ostenta cabelos pelos ombros, usa cachecol, All Star e tem ar de pintor impressionista. Estudante de Filosofia, designer gráfico e desenhista, ele nutre paixão pelas histórias em quadrinho desde que era criança e, assim como muitos de sua época, ainda junta as moedas e corre para a banca de revistas em busca da nova edição do gibi do Batman.

Se por um lado a fixação de Cassol por HQs levou muitas de suas moedas ao longo dos anos, ela também fez crescer sua paixão por este tipo de arte. Hoje Idovino está prestes a lançar a segunda edição do gibi “Armas Vivas e Extragenes” criado por ele e o também artista Paulo José Costa. A exemplo da primeira edição, lançada no ano passado, o número 2 da obra terá tiragem de 300 exemplares. Os recursos para custear o gibi serão arrecadados por meio do site de financiamento coletivo Catarse. “A primeira edição conseguimos lançar por meio do Catarse. Foi uma experiência muito interessante, arrecadamos R$ 6 mil com doações vindas de diversos lugares do país”, conta Cassol.

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Do espaço sideral para Curitiba e Região Metropolitana

Armas Vivas e Extragenes começou a ser gerada há alguns anos. Diante das dificuldades em colocar a obra em páginas de um gibi Cassol pensou em abandonar o projeto. Foi aí que Paulo Costa entrou na história. “Assim como eu o Paulo também tinha uma história. Eu tinha dificuldades para fazer o roteiro da obra. Então o Paulo mexeu no meu roteiro e eu nos desenhos dele. Aí, por meio dessa parceria, decidimos lançar uma obra em conjunto, a Armas Vivas que é do Paulo e a Extragenes que é minha”, conta.

Armas Vivas traz como temática a criação de super soldados diante de uma eminente guerra mundial. Muita ação é o carro chefe da história que envolve intrigas militares e é carregada de interessantes noções de geopolítica. Já Extragenes retrata Curitiba e Pinhais (cidade onde mora Cassol) tomada por alienígenas refugiados de planetas que não existem mais vivendo em aparente tranquilidade com seres humanos. No total 2 bilhões de extraterrestres se espalharam pela terra. As cavas, lagoas que ficam na divisa de Pinhais com Piraquara são, na trama, local onde uma criatura vinda do espaço é resgatada por uma divisão do exército (quem conhece o local sabe que não há lugar melhor para algo do gênero). Na história há um conflito deflagrado depois de um atentado feito por terroristas contra mercurianos. Assim, os quadrinhos se desenrolam ambientados em locais como a Torre da Oi, no bairro Mercês e o bar Casa Verde que fica em frente a Reitoria da Universidade Federal do Paraná. Cassol ressalta que a segunda edição trará ainda mais referências de Curitiba e Região Metropolitana. “Na segunda edição as histórias serão ambientadas, além de Curitiba, em Pinhais, Piraquara e Quatro Barras”.

A segunda edição também trará referências de Curitiba e região

A segunda edição também trará referências de Curitiba e região

A obra de Cassol e Paulo já conquistou um público fiel. O também filósofo Rafael Pires de Mello que nunca foi acostumado a ler gibis não poupa elogios à primeira edição e aguarda ansioso o lançamento da segunda. “A obra ficou muito boa. Não apenas pela concepção estética, na qual os traços particulares de cada artista ficam evidentes. Mas também pelas histórias em si. Armas Vivas levanta a questão de até que ponto as armas bélicas podem criar realmente super soldados. Na Extragenes há uma indagação muito interessante com relação da concepção humana. No enredo alienígenas e humanos convivem em paz e isso me trouxe a reflexão de até que ponto as concepções humanas são definidas pelo convívio social. Enfim, é uma obra que vale a leitura e aguardo ansioso o lançamento da segunda edição”, opina.

Heróis locais

Tissy Alex Sander Moraes é outro sujeito que se orgulha de viver a Cultura Nerd. De barba longa, tatuagens do Batman e da Bat-Capivara de Curitiba ele mostra um senso de humor apurado ao falar sobre sua relação com as histórias em quadrinho. “Minha ralação com gibis está muito ligada com meu amor platônico pelo Batman. Conheci e comecei a gostar dessa mídia graças ao homem morcego. Ouso dizer que sou colecionador, todo mês compro a revista mensal do Batman e algumas edições especiais, pelo menos compro uns cinco gibis por mês”, conta. Seu primeiro HQ ele ganhou da mãe, quando tinha uns quatro ou cinco anos. Era a edição “Os Filhos de Superman e Batman nº23”. “ Ela me deu essa revista porque eu curtia demais o desenho do Batman produzido pelo Bruce Timm. Infelizmente perdi essa edição, volta e meia busco tal raridade no mercado livre. Apesar desse primeiro contato no começo dos anos 90, passei a colecionar HQs com 13 anos. Claro que entre meus quatro e 13 anos eu li Turma da Mônica e gibis da Disney, o que me fez gostar de ler”.

Apaixonado por HQs Tissy também se interessa pela produção local de gibis

Apaixonado por HQs Tissy também se interessa pela produção local de gibis

Como começou cedo, Tissy tenta influenciar o irmão mais novo a também desenvolver amor pelas histórias em quadrinho. Mas não tem dado muito certo, pelo menos não o quanto ele esperava. “Essa praga é ruim para ler. Ele leu algumas histórias do Batman e tem uns cinco meses que está lendo um livro sobre a série de jogos do GTA. Mas as vezes ele pega uma das minhas HQs e começa a folhear, se interessa e acaba lendo, porém é um tanto raro isso. O que ferra um pouco é que ou sou o único em casa que tem o costume de ler e acho que isso dificulta um pouco fazer com ele seja adepto de uma leitura diária”, conta.

Já Tissy, na adolesceria passou a comprar somente gibis da editora Marvel. Fazia a limpa nos sebos procurandoBatman Superaventuras Marvel, Marvel 98/99/2000 e qualquer revista com Demolidor, Elektra e Justiceiro na capa. “Depois de uns 3 anos dei uma pausa com gibis e comecei a colecionar filmes, motivado pelo lançamento do filme Batman Begins,e com o lançamento do Cavaleiro das Trevas (continuação de Batman Begins). Então voltei a comprar gibis, mas como eu era um mero garoto juvenil que ganhava pouco comprava 1 ou 2 revistas por mês”. Sem vergonha Tissy admite que, apesar de gostar muito de HQs, sua paixão mesmo é o Batman. “Cara, admito, sou uma P****** do Batman”, debocha.

No entanto, mesmo amando o Batman, Tissy também reconhece e admira a produção local e costuma comprar HQs de artistas curitibanos. “Conheço e acompanho o trabalho do Lobo Limão, tirinhas do Bennet e Quadrinhofilia do José Aguiar, deste eu tenho seis gibis e todos autografados. Também tenho um livro com as melhores tirinhas do Amok, personagem do Benett, e Batsuman do Yoshi Itice que faz parte do lobo limão”. O aficionado revela que acha fantástico quando as histórias são ambientadas na fria Curitiba e que sempre que encontra adquire obras que se passam na capital. “Tenho Vigor Mortis Comics 1 e 2, que se não me falha a memória tem algumas referências que se passam em Curitiba, mas posso ter dito uma besteira enorme e nenhuma delas cita Curitiba. Em todo caso são crias do José Aguiar e Paulo Biscaia Filho, nomes fortes do cenário de HQs em Curitiba. Também tenho duas revistas do Gralha o maior e melhor super herói de Curitiba. Eu acho do caralho essas histórias serem ambientadas em Curitiba, como uma boa capivara nativa da cidade do leite quente eu amo essa cidade. Eu queria conhecer mais autores regionais, eu sei que tem, Curitiba sedia o GibiCon, um puta evento de quadrinhos eu que preciso tomar vergonha na cara e descobrir o trabalho dos pias e gurias de Curitiba”.

Tissy tem hoje um interessante blog onde, de forma irônica e perspicaz, traz análises críticas e debate sobre obras audiovisuais e literárias de estilo Trash, Terror, Gore, Terrir, entre outras. O blog é o Plano Nove: http://www.planonove.com.br/

O Gralha

O Gralha, super herói genuinamente curitibano

O Gralha, super herói genuinamente curitibano

Ele surgiu em outubro de 1997, numa edição especial (comemorando os 15 anos da Gibiteca de Curitiba) da extinta revista Metal Pesado. Para realizá-lo, foram convocados vários quadrinhistas locais, dos quais um grupo decidiu fazer de um projeto comum uma homenagem a um ícone desconhecido dos quadrinhos curitibanos, o Capitão Gralha. Publicado no início dos anos quarenta pelo também desconhecido Francisco Iwerten (personagem fictício).

Fugitivo de um planeta de homens-pássaros, regido pelo terrível Thagos, o usurpador, o Capitão Gralha encontrou refúgio na Terra, onde utilizava seus poderes alienígenas no combate ao crime no Paraná. Misto de Flash Gordon com Superman, ele teve vida breve. Foram publicados apenas dois números de suas aventuras, mergulhando esse trabalho pioneiro no mesmo abismo que tantos outros precursores das HQs nacionais. Foi unânime que um homem alado, com um “G” no peito e bigodinho não seria muito bem visto hoje em dia. Optou-se então por criar uma versão atualizada do datado Capitão. Alessandro Dutra criou o visual, Gian Danton e José Aguiar criaram a história, Antonio Eder, Luciano Lagares, Tako X, Edson Kohatsu, Augusto Freitas, Dutra e Aguiar se encarregaram da arte e Nilson Miller fez a capa da edição. E assim o Gralha fez sua estréia. Um ano depois o personagem ganhava sua página semanal no caderno Fun da Gazeta do Povo, agora como um adolescente que descende do Capitão Gralha original. Um herói iniciante em uma metrópole um pouco diferente da Curitiba de hoje. Talvez, a única cidade do país, onde um super-herói se enquadraria sem parecer (muito) deslocado. Afinal, ela mesma faz questão de, provincianamente, vender sua imagem como “cidade de primeiro mundo”. E nada mais isso que um vigilante de colante.

GibiCon

A Gibicon é um evento internacional de histórias em quadrinhos, que ocupa diversos espaços da cidade de Curitiba com atividades gratuitas: minicursos, oficinas, palestras, debates, lançamentos de livros, sessões de autógrafos e exposições com a presença de artistas gráficos e quadrinistas do Brasil e outros países. A convenção prestigia os artistas locais e a força da sua produção no cenário nacional ao mesmo tempo em que apresenta quadrinistas do mundo todo, promovendo o intercâmbio profissional e intelectual.

Realizada desde 2012 pela Znort Editora e pela Prefeitura de Curitiba/Fundação Cultural de Curitiba o evento reune artistas de escolas, estilos e idiomas diferentes. Assim a Gibicon movimenta a área com discussões, ajuda a viabilizar e estreitar contatos, aproxima as histórias em quadrinhos do grande público, e faz com que a cidade abrace de vez sua vocação como polo produtor e difusor dos quadrinhos brasileiros, firmando Curitiba no circuito nacional de encontros sobre quadrinhos.

Armas Vivas e Extragenes no Catarse

Cassol e Paulo pretender angaria recursos para lançar a 2ª edição por meio do Catarse

Cassol e Paulo pretender angaria recursos para lançar a 2ª edição por meio do Catarse

Cassol e Paulo pretendem agora repetir o sucesso da primeira edição e conseguir financiamento para a segunda por meio do site coletivo Catarse. Desta vez o projeto busca atingir R$ 2,500 para imprimir 300 cópias. O recurso, somado com as vendas de exemplares da primeira edição, serão suficientes para dar vida a uma obra promissora que se passa em Curitiba e Região Metropolitana. Além de contribuir com uma produção que se passa em Curitiba e Região, o projeto oferece também interessantes contrapartidas ao financiadores que incluem até uma cerveja colonial feita especialmente para essa edição. Para contribuir com o projeto acesse: https://www.catarse.me/pt/armasvivasextragenes2

Você pode conhecer um pouco mais sobre o projeto na Fan Page: https://www.facebook.com/armasvivasextragenes?fref=ts

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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