“… Quando o comandante do 15 falou, deu impressão que nóis ia direto para a guerra. E aquelas moças da Legião Brasileira, colocando as medalhinhas em nós e chorando, foi uma emoção muito grande, ficamos com a garganta seca… olhando ao lado e vendo meus companheiros com lágrimas nos olhos, senti muita falta da minha família, da minha mãe. Para acalmar ela eu não disse bem a hora que em que ia embarcar. Então senti uma falta imensa e dei graças a Deus de entrar no trem e partir.” Este é um trecho do relato que Aristides Saldanha Vergés deu à escritora Carmen Lucia Rigoni para o livro Nas Trilhas da Segunda Guerra Mundial, publicado em 2001.

Aristides viu o capão nascer e se desenvolver. Ele estava por aqui antes mesmo do bairro existir. Nasceu em 16 de março de 1921, época que o lugar ainda era chamado de Cajurú. Antes de servir o exército, Aristides trabalhava na empresa Reiosten, que fabricava artefatos de madeira.

Quando embarcou para a Europa, em 1944, Aristides Saldanha Vergés tinha 23 anos. Ele era arrimo de família (morava com a mãe e duas irmãs) e por isso não tinha a obrigação de lutar na guerra. Porém sua mãe o incentivou e ele foi. Foi sem medo e com a certeza de que iria voltar. Uma certeza ancorada na forte relação que tinha com mãe. No período que esteve na guerra ele recebeu bons agouros e a certeza do reencontro com a mãe e as irmãs ficou ainda mais forte. “Aconteceram coisas na Itália que dera essa certeza a ele. Um dia milhares de soldados estavam passando perto de um barranco e tinha uma menininha. Quando ele foi passar ela deu um pacotinho de amendoim para ele. Outra vez eles estavam em um acampamento em outro lugar, juntos com soldados de diversas nações, e uma moça entrou no acampamento e lhe entregou um saco com laranjas. Isso deixou ele muito confiante e feliz, porque aqui no Brasil, quando ia trabalhar, sua mãe sempre dava laranjas para ele. Isso era um sinal que a mãe dele estava cuidando dele”, relata Edison Altair Vergés, filho de Aristides.

O pracinha partiu para guerra em 2 de julho de 1944 e retornou um ano depois, em 18 de julho de 1945 sem graves ferimentos, confirmando os bons sinais que tinha recebido. Aristides se orgulhou durante toda sua vida de ter ido e voltado da guerra sem matar nenhuma pessoa.

Reservado, Aristides passou a falar mais sobre o que viveu na Itália, apenas nos últimos anos de sua vida. Recentemente ele revelou um documento que trouxe da guerra. Se trata da transcrição do discurso proferido no dia do soldado, em plena guerra, pelo General americano MacArthur, um dos nomes mais importantes da batalha. Neste discurso MacArthur cita os pracinhas brasileiros. O aparecimento deste documento deixou os pesquisadores perplexos. Pois em todo o exército brasileiro, Aristides era o único que tinha este documento. “Ficou provado, é o discurso do MacArthur”, confirma Edison Vergés.

Aristides voltou da guerra com uma espécie de neurose, conta seu filho. Essa neurose se manifestava em datas festivas, com o estouro de rojões. Foi curiosa a maneira que ele se livrou desta neurose. Cerca de 20 anos atrás, ele subiu em uma árvore para cortar alguns galhos que estavam encostando nos fios de alta tensão e levou um grande choque e caiu. O tombo não lhe machucou, mas daquele dia em diante ele passou a não ter mais a neurose.

Aristides não seguiu carreira militar, quando regressou da Europa, em 1945, ele pediu baixa do exército e voltou para fábrica onde trabalhava antes de ir para guerra. Ali permaneceu até o fim de sua vida, chegando ter sociedade na empresa.

Até o fim de sua vida Aristides foi um homem ativo. Tanto que dirigia até os 90 anos. Quando o Detran lhe negou a renovação da carteira ele ficou extremamente magoado. Foi visitar seus amigos do Varejão e disse: “Agora tiraram minha carteira, só falta eu morrer. Então estou me despedindo”. Dirigir era muito importante para ele, pois ele mantinha muitos compromissos com os amigos e família.

pracinha 3

FAMÍLIA

Aristides Saldanha Vergés e sua esposa Neusa, constituíram uma grande família. São quatro filhos, 11 netos, 24 bisnetos e um tataraneto, que está para nascer. Ele era muito organizado e prestativo com todos da família. Não perdia um aniversário e sempre estava querendo saber o que estava acontecendo com todos. O seu comportamento era de homem reservado, muito calmo e sereno. “Ele quase não conversava, ele mais dava os exemplos. Nunca via ele levantar a voz ou brigar”, lembra o filho Edison. Aristides chegou aos 92 anos lúcido. Dava importância aos hábitos de uma vida saudável e fazia questão de passar isso aos que estavam ao seu redor.

Seu neto Marcelo o descreve como “um cara diferenciado, um cara que cuidou da família de verdade”. Apesar de uma morte aos 92 anos ser considerada natual, a família não conseguiu se preparar para este momento. “Mesmo com a idade que ele tinha, pela pessoa que ele representou para gente. Ele foi o cara que cuidou de todos, é uma tristeza muito grande, uma perda irreparável. A gente se acostumou com a ideia de que ele precisa morrer, o que a gente não consegue é preencher esse espaço”, conta emocionado Marcelo. Todos os anos a família toda se reunia no feriado de 7 de setembro. O dia da independência era muito importante para os Vergés. Além disso, ele sempre desfilava com os militares, sempre em lugar de destaque.

DESPEDIDA

Aristides foi acometido por uma pneumonia. Em sua permanência no hospital, para o tratamento, contraiu uma infecção urinária. No combate à infecção apresentou uma tosse contínua, consequência de uma fibrose no pulmão. Devido a isso passou a ter dificuldade para respirar. Pois seu pulmão não tinha mais a capacidade de absorver a quantidade necessária de oxigênio. Essa condição o levou a ter que respirar com ajuda de aparelhos, fato que o incomodava muito.

A figura de Aristides Vergés era tão querida que todo o corpo clínico do Hopital Militar se comoveu com sua situação. “Eles vinham falar com a gente, passar os recados e nos deixar a par do estado de saúde dele, mas não conseguiam. Começavam a chorar”, conta o filho Edison. Aqueles militares estavam diante de um homem que é a história do exército brasileiro. A preocupação de Aristides com a família era tanta que ele “deixou uma ordem no hospital determinando que se ele morresse de noite ou de madrugada não era para liberarem o corpo, isso para os familiares não serem assaltados e nem correrem nenhum perigo de noite na rua”, conta o neto Marcelo. Na UTI do Hospital Militar, Aristides disse à família que sua hora havia chegado. “Ele programou a morte dele”, revela o filho. “Ele agarrou a minha mão e me disse: Se precisar assine!”, conta Edison.

Seu quarto tinha vista para uma pracinha dentro do hospital. Ali brincavam seus netos na manhã de domingo, ele olhou para fora e pediu ao filho: “Me ajude a levantar meu braço que quero dar um tchau para meu povo”. Era dia 6 de outubro.Vergés chamou seu médico e pediu, como se fosse uma ordem: “Tenente, quero dormir”. Por volta de 23h30 ele faleceu. Atendendo ao seu pedido, o corpo foi liberado somente às 6h da manhã. Em seu velório Aristides havia pedido para dispensarem os discursos de padres e pastores. Queria apenas violinos em seu sepultamento, e assim foi. Agora descansa no túmulo dos Expedicionários, ao lado de antigos amigos de batalha.


  Publicado originalmente no Jornal Capão da Imbuia e Tarumã em novembro de 2013.

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Everton Mossato

É jornalista, cofundador do Parágrafo 2, “emprestado” ao funcionalismo público. Descabaçou como repórter em jornais de bairro de Curitiba. Já teve uns blogs e editou o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Aprecia o ritmo de produção intermitente e acredita que “uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor”.

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