É sexta feira. Nelson forquilha coloca sua melhor beca. Calça de linho, devidamente passada e engomada, nos pés um sapato branco impecável e na cabeça um chapéu de impor respeito por onde passa. Debaixo do braço carrega o pandeiro e nos bolsos meia dúzia de bombinhas. Distante uns 50 metros da casa de seu inseparável amigo, o violonista Velho Arcírio, ele acende o artefato, ouve o barulho e em alguns minutos vê o homem sair em trajes semelhantes aos seus. Sob os ombros Arcírio traz o violão. A dupla de sambistas parte para mais uma jornada boêmia, tocando de bar em bar e onde mais o samba os levar.

Juntos Nelson Forquilha e Velho Arcírio demonstravam um sintonia e cumplicidade magistral. “Só de olhar um pro outro a gente já sabia o que fazer. O tempo, o contratempo… não tinha erro”, conta Forquilha. Os amantes do samba bem tocado adoravam ver os dois juntos. Quem não gostava eram as esposas dos bon-vivants. Elas sabiam que quando se juntavam tinham hora para sair mas nunca para voltar. Para não dar as caras e arriscar levar uma bronca da patroa do amigo, eles criaram o sinal com bombinhas. Mas como mulher é bicho que fareja malandragem de longe, o código um dia foi quebrado. “Acendi a bombinha e fiquei esperando ele sair, aí senti um tapinha de leve nas minhas costas. Quando olhei era a patroa dele. Já tá esperando Pé de Anjo? Ela me perguntou”, Forquilha lembra da história e dá rizada.

Quando ajudava no bar da Escola de Samba Colorado, a qual participou da fundação, Nelson ouvia muita história de malandro que tentava lhe “dobrar“. Esperto ele antecipava a conversa e dava uma Forquilha no malandro. A gíria da época virou seu apelido nas rodas de samba.

Nelson Cordeiro, chamado de Forquilha nas rodas de samba, é um dos baluartes do carnaval de Curitiba. Junto com seu irmão, Maé da Cuíca – falecido no início deste ano – ajudou a fundar a Histórica Escola de Samba Colorado em 1945, na Vila Taci, berço do samba em Curitiba. “Dos fundadores acredito que sou o único vivo”, reflete. Nelson foi criado no meio da música e aos oito anos “já tinha instrumento na mão. Pandeiro, surdo, tamborin… a gente se defende como pode”, diz. O sambista tocou com muita gente boa. Janguito (Regionais do Janguito) e os saudosos Arcírio e Zé Pequeno são alguns nomes. Porém, a lista é imensa, afinal são 75 anos de música. Até mesmo na orquestra já tocou seu pandeiro. Foi um dos primeiros percussionistas da All Star.

Nelson lembra com saudades de Zuzu e do grupo que formavam para fazer um samba de alto nível. O grupo não tinha nome. “A gente se juntava e tocava”, conta. Mas um dia, diante de um recibo para assinar – referente a um dos raros cachês que ganhavam – Nelson batizou o conjunto com o nome “Baba de Quiabo”, disse ele ao pagador. Forquilha e seus amigos sempre fizeram música por prazer. Eles tocavam onde os chamassem ou onde queriam e se alguém não gostasse azar. Azar e arrependimento dos antimusicais.

Certa vez, Nelson Forquilha e seu amigo Cid desceram para praia num Fusca Azul e rodando na beira mar viram um barzinho que pensaram ser aconchegante. Sentaram e pediram uma gelada. Para o papo ficar mais animado Nelson pegou seu pandeiro e, com a sutileza de sempre, puxou um velho samba. Mal as notas ressoaram e o garçom do local o fez parar. “Aqui não pode tocar não”, disse categórico. Pois bem, num bar ao lado sentaram-se e encontraram no reduto meia dúzia de entusiastas da boa música. Dois sambas depois, se viram rodeados de uma multidão animada e a mesa farta de tudo quanto é petisco. Tinha cerveja que não deixava garganta alguma seca. Depois de muito tocar, beber e comer (sem pagar um tostão é bom lembrar) Nelson e Cid saíram do recinto. Na rua se depararam com o olhar desolado do garçom do bar vizinho, o antimusical, que olhava com inveja para o concorrente abarrotado de clientes e ele, em silêncio tocando as moscas do bar.

Nelson Cordeiro nasceu no dia 20 de junho de 1930 em Paranaguá e veio ainda criança para Curitiba, porém seu registro consta a data de 17 de setembro, homem de sorte comemora aniversário por dois e envelhece por um. Neste ano o sambista comemora 83 anos de idade. A música o acompanha há 75 anos, mas este nunca foi seu ganha-pão. Durante duas décadas Nelson foi auxiliar na tesouraria do Sindicato dos Bancários. E por lá também fazia uma roda de samba. Mas sua outra ocupação é que chama mais atenção. Nelson Cordeiro, acreditem, foi árbitro. Apitou durante 21 anos pela Federação Paranaense de Futebol. Começou nos jogos entre juvenis e foi subindo de status até chegar aos grandes jogos do Estado. “Em Curitiba apitei em todos os campos, os que ainda estão de pé e muitos que já não existem mais”, conta. Na época (década de 60 e 70) um copinho d’água não tirava mando de campo de ninguém. E os jogadores e árbitros enfrentavam, por vezes, pedradas dos torcedores insatisfeitos. Nelson já viu até tiro dentro de campo, isso lá para os lados do norte pioneiro. Mas o ponto alto de sua carreira foi o dia de sua aposentadoria dos gramados. Em 1977, aos 45 anos, ele teve o prazer de apitar a partida da Seleção dos Milionários, o time formado por jogadores recém aposentados. Neste dia, no Estádio Belfort Duarte (hoje Couto Pereira), correu ao lado de Garrincha, Djalma Dias, Belini e outros grandes nomes do futebol brasileiro.

nelson forquilha

O sambista e árbitro de futebol, Nelson Forquilha, faleceu em agosto de 2014 | foto: Everton Mossato

“Se algum dia perguntarem por mim diz que eu fui por aí. Em qualquer esquina eu paro. Em qualquer botequim eu entro e se houver motivo é mais um samba que eu canto”, as palavras compostas por Zé Keti ilustram a vida de Forquilha e de muitos sambistas. Com o velho amigo Arcírio o palco ia além das mesas dos botequins, a rua também recebia os acordes da dupla de bambas. Numa madrugada, voltando de uma jornada da boêmia, eles pararam na frente da casa do saudoso Manteiga, grande cantor e baterista, e decidiram fazer uma serenata para o nobre amigo. Arcírio colocou o pé na cerca para fazer apoio do seu violão. Mas antes mesmo de soltar o primeiro bordão o fiel escudeiro da casa agarrou-lhe o sapato numa mordida de curar o mais inebriante porre. O cão atravessou o samba e a dupla deixou a serenata pra depois.

Texto publicado originalmente no Jornal Capão da Imbuia e Tarumã em junho de 2013.

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Everton Mossato

É jornalista, cofundador do Parágrafo 2, “emprestado” ao funcionalismo público. Descabaçou como repórter em jornais de bairro de Curitiba. Já teve uns blogs e editou o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Aprecia o ritmo de produção intermitente e acredita que “uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor”.

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