O barulho provocado pelo choque entre as rodas dava uma noção de quão disputada seria a partida. Gritos, correria e a bola que passava de mão em mão. A cada cesta a euforia da torcida. Na quadra, o deslizar da borracha dos pneus substituía o tão característico som das solas dos tênis em atrito com o piso. Ao todo 117 atletas representando oito equipes participaram dos jogos na 1ª Etapa do Campeonato Paranaense de Basquete sobre Rodas, realizada na cidade de Pinhais, Região Metropolitana de Curitiba, no último dia 29/05.

As equipes, compostas por atletas portadores de algum tipo de deficiência física, vieram das cidades de Curitiba, Ponta Grossa, Londrina, Guarapuava, Cascavel, Castro, além dos anfitriões, os Pinguins do Sul da cidade de Pinhais. Alojados no Ginásio do Caic, os jogadores se preparavam para o final de semana de disputas. Os troncos avantajados pelo esforço realizado pelos braços no impulso das cadeiras se curvavam para o lado ao cumprimentar os adversários. Uma a uma as mãos se encontravam, não apenas em um gesto de “fair play”, mas no reconhecimento de que, mesmo diante das limitações impostas pelo corpo, todos são competidores profissionais.

A cerimônia de abertura

Durante a cerimônia de abertura, na sexta feira (29) muitos agradecimentos. O anfitrião e fundador dos Pinguins do Sul, João Caldas, mais conhecido como Pinguim, agradeceu os companheiros de time, os colegas de esporte, os patrocinadores e o apoio dos políticos da cidade. “Fico muito feliz em ver essa grande quantidade de atletas novamente em Pinhais. Os times do nosso estado estão cada vez mais profissionais e temos tudo para realizar um grande Campeonato Paranaense”.

Ao todo 117 atletas disputam o Campeonato Paranaense

Ao todo 117 atletas disputam o Campeonato Paranaense

 Para dar início ao evento cada equipe entrou em quadra com sua  delegação. As cadeiras vinham bailando como se os atletas, a exemplo  do que acontece na Fórmula 1, quisessem aquecer as rodas. Mais de cem  jogadores perfilados. Cadeiras novas, usadas, algumas com rodados  envergados para dentro, talvez na busca por uma melhor aerodinâmica  na hora de correr em quadra.

 Entre os políticos presentes na cerimônia estava o prefeito da cidade de  Pinhais, Luizão Goulart (PT). Para ele, sediar jogos de basquete sobre  rodas é um orgulho para o município. “É sempre muito satisfatório  sediar um evento como esse. Nossa cidade tem um trabalho importante na questão da inclusão e nosso objetivo é incentivar e valorizar todos os atletas”, disse.

Para o presidente da Federação Paranaense de Basquete em Cadeira de Rodas, Ben Hur Chiconato, a cidade de Pinhais deu uma grande lição de organização e logística para bem receber os atletas visitantes. Ele também destacou a evolução técnica de boa parte das equipes que estão participando do campeonato. “Estamos vindo numa ascensão em quesitos fundamentais para o crescimento da modalidade em nosso estado. A postura e organização das equipes são a verdadeiras provas do nível de competitividade que o nosso campeonato está atingindo”.

Entre as apresentações na cerimônia de abertura estava a do grupo de capoeira do Mestre Corró.

" A vida continua independente das condições"

” A vida continua independente das condições”

Compondo a roda, além dos capoeiristas mais graduados e das crianças, estava também o Atleta do time de Cascavel, Jaime Augusto Reis. Apoiando-se nos braços Reis rodopiava fazendo “piões de mão” e “estrelas”. Segundo ele, a paixão pela capoeira vem desde quando ainda era menino. Depois o jogador passou pelo Handebol e há dois anos pratica basquete sobre rodas. “Entrar na quadra e jogar basquete em cima de uma cadeira de rodas é como ‘pular um muro que dá acesso ao mundo exterior’. É uma confirmação de que a vida continua, independente de nossas condições”.

Simplesmente profissionais

Quem não convive com atletas que jogam basquete sobre rodas costuma ter em mente que o sentimento maior entre eles é o de superação. Grande engano. Esse clichê sobre vencer as dificuldades é algo superado por eles há muito tempo. São profissionais e, portanto, preferem falar sobre os jogos, suas qualidades como atletas e os pontos fortes de seus times. “O basquete sobre rodas é muito mais do que superação. Hoje aqui se reúnem atletas profissionais que treinam várias vezes por semana e tem nesse esporte um objetivo de vida”, ressalta Bem Hur.

Denize prefere o bater das cadeiras no basquete sobre rodas a qualquer outro esporte

Denize prefere o bater das cadeiras no basquete sobre rodas a qualquer outro esporte

Os times são mistos e não há “moleza” para as mulheres que decidem praticar o esporte. Denise Euzébio, do time de Cascavel, treina três vezes por semana. Divide a rotina dos treinos com a faculdade de Educação Física. Menina prodígio ela também joga handebol, mas prefere o atrito das cadeiras de rodas nos jogos de basquete em meio aos homens. “No começo muitos ‘torceram o nariz’. Mas consegui me impor e treinando muito mostrei que também tenho qualidades”, disse. A jovem, bem maquiada, de batom vermelho e unhas bem-feitas, se transforma quando entra em quadra. Grita, joga a cadeira contra a cadeira do adversário, marca, reclama e mostra porque foi eleita a jogadora destaque no último Campeonato Sul Americano de Basquete Sobre Rodas disputado na Argentina. “Adoro isso. Sem dúvidas é o que quero para minha vida. Pretendo trabalhar muito para chegar à seleção brasileira”.

“O pivô é o grande homem do time”. A declaração vem de um senhor que assiste o jogo das arquibancadas. Ele fala com conhecimento de causa. Carlinhos (só o primeiro nome mesmo, ele acha desnecessário citar sobrenomes) foi jogador de basquete sobre rodas durante 20 anos. Jogou no time de Recife, que segundo ele é o melhor do Brasil e em times de São Paulo e do Rio de Janeiro. “Saber marcar, principalmente durante os contra-ataques, é o grande segredo para a vitória”, ressaltou.

Resultados

Os Curitibanos do Fênix e os pontagrossenses dos Tubarões assumiram a ponta da tabela ao vencerem seus dois jogos, somando quatro pontos. O Fênix passou pelo Caramuru/Castro/Falcão – 76 a 14, e os donos da casa, o Pinguins do Sul – 50 a 33. Já os Tubarões/MM derrotaram a Unifil/EAD/Águias, de Londrina, por 55 a 37, e também o Pinguins do Sul por 55 a 40. A ADFG/Lobos/Guarapuava, e o Pinguins do Sul/Pinhais, também somam quatro pontos na classificação, mas ambas têm um jogo a mais que as demais equipes. O cestinha da competição até o momento é Vinícius da Luz, do Tubarões/MM/Fundesp/LDPG, que anotou 49 pontos entre os dois jogos da sua equipe.

Histórico

O basquete em cadeira de rodas começou a ser praticado nos Estados Unidos, em 1945. Os jogadores eram ex-soldados do exército norte-americano feridos durante a 2ª Guerra Mundial. A modalidade é uma das poucas que esteve presente em todas as edições dos Jogos Paralímpicos. As mulheres disputaram a primeira Paralimpíada em Tel Aviv, no ano de 1968.

O basquete em cadeira de rodas foi a primeira modalidade paralímpica a ser praticada no Brasil, em 1958. Os principais responsáveis pelos primeiros passos foram Sérgio del Grande e Robson Sampaio. Nos II Jogos Parapan-americanos, em Mar Del Plata, em 2003, a seleção brasileira masculina conquistou uma vaga para Atenas 2004 retornando a uma edição de Jogos Paralímpicos após 16 anos de ausência. Já a seleção feminina participou apenas dos Jogos de Atlanta 1996. No Parapan do Rio de Janeiro, em 2007, o Brasil conquistou o 4º lugar no feminino e o 3º no masculino.

A modalidade é praticada por atletas de ambos os sexos que tenham alguma deficiência físico-motora, sob as regras adaptadas da Federação Internacional de Basquete em Cadeira de Rodas (IWBF). As cadeiras são adaptadas e padronizadas, conforme previsto na regra. A cada dois toques na cadeira, o jogador deve quicar, passar ou arremessar a bola. As dimensões da quadra e a altura da cesta são as mesmas do basquete olímpico. No Brasil, a modalidade é administrada pela Confederação Brasileira de Basquetebol em Cadeira de Rodas (CBBC).

Classificação

Cada atleta é classificado de acordo com comprometimento físico-motor e a escala obedece aos números 1, 2, 3, 4 e 4,5. Com objetivo de facilitar a classificação e a participação de atletas que apresentam qualidades de mais de uma classe distinta (os chamados casos limítrofes) foram criadas quatro classes intermediárias: 1,5, 2,5 e 3,5. O número máximo de pontuação em quadra não pode ultrapassar 14 e vale a regra de que, quanto maior a deficiência, menor a classe.

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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