“Eu mordo o cachorro e às vezes a prefeitura”. A voz grave intimidava. O dono dela era um negro de meia idade. Magro, cabelos grisalhos e pinta de malandro carioca. Não era do Rio de Janeiro, mas do Largo da Carioca, na cidade de Antonina. A alma sim, essa era banhada pelas águas de Ipanema. A paixão pela Cidade Maravilhosa só cresceu quando ele por lá morou no final da década de 1940. Em 1951 voltou para Curitiba e criou raízes no Capão da Imbuia. Nasceu Mansueden dos Santos Prudente no dia 03 de julho de 1931. Aos 20 anos virou Mestre Chocolate, um dos maiores nomes da história do carnaval de Curitiba.

Chocolate foi integrante por muito tempo da Escola de Samba Colorado da Vila Capanema. Em 1971 criou o “Ideais do Ritmo” que era ponto de encontro do bairro Capão da Imbuia. Uma escola de samba que de escola só tinha o nome. Na verdade era um bloco onde desfilava a família Chocolate, sua esposa, filhos e até sua mãe. Suas fantasias, alegorias e adereços eram improvisados. A bateria, porém, se não era a maior, era a melhor. Com pouquíssimos instrumentos – até afinada demais para os padrões do Brasil Meridional -, vinha com o entusiasmo do samba-enredo de autoria do próprio Chocolate.

“O Chocô foi um mito. Marcou toda uma geração, não apenas pelo seu talento no samba, mas principalmente pela figura antológica que ele era”

Mestre Chocô era carnavalesco durante os 365 dias do ano. Sua casa era reduto de bambas. Dona Ilda, esposa do mestre, precisava colocar mais água no feijão todas as noites, pois os meninos ficavam até alta madrugada bebendo, cantando e aprendendo com o mestre. “O Chocô foi um mito. Marcou toda uma geração, não apenas pelo seu talento no samba, mas principalmente pela figura antológica que ele era”, revela Moysés Ramos, carnavalesco e um dos braços direitos de Chocolate.

Ele vivia do Carnaval, não tinha vergonha de confessar a dificuldade de arrecadar verbas e arrebanhar pastorinhas para o seu rebanho. “A falta de grana está me deixando nervoso, inclusive estou passando mal à beça, tomei até uma tiaminose para me recuperar. Você vê: o sentido de fazer Carnaval artístico em Curitiba é dificultoso, porque o povo não se motiva, entende?”, dizia ele ao jornalista Dante Mendonça na década de 1970. Apesar das dificuldades, os tempos eram de glória. Dono de um estilo próprio Chocolate marcou época nos desfiles curitibanos. Em 1973, seu samba intitulado “Mangava”, ganhou a nota 9,5 de Cartola, um dos maiores nomes que o samba brasileiro já teve. “Eu ganhei 9,5 do Mestre Cartola, e você, ganhou quanto?”, costumava zombar.

Um baluarte de respeito

O jeito malandro e a vida boêmia fizeram Chocolate se tornar uma lenda entre os carnavalescos de Curitiba. Tinha muitos amigos e seguidores. Os sambistas Senthé, Nelson Furquilha, Alaércio Laé, Mestre Maé da Cuíca, os jornalistas Dante Mendonça, Glauco Mazza e Glauco Souza Lobo, eram apenas alguns dos admiradores do velho Chocô. Mas, além deles, havia Dona Ilda, a eterna companheira de Chocolate e os meninos, uma horda de aprendizes de boêmios que seguiam os passos e trejeitos do Mestre.

As histórias facilmente renderiam um filme. As anedotas são as mais lembradas. Sempre com um livro de ouro, lugar onde anotava as contribuições conseguidas para o carnaval, embaixo do braço, Chocolate saía por aí para ganhar a vida. Ao visitar a indústria de um velho amigo, foi logo apelando:

– Morreu o Betinho, passista dos bons. Preciso de uma ajuda para o enterro.

O amigo lhe deu um ajutório em dinheiro, mas completou com uma galhofa:

– Chocolate, este ano sua escola não vai sair no Carnaval. Não é?

– Vai. Por que não sairia? – respondeu Mansueden.

– Mas este é o 18.º sambista que você enterra. E ainda estamos em agosto

Mas lhe tirar a calma não era algo difícil. Principalmente quando o desfile do Ideais do Ritmo corria riscos por causa do atraso das verbas da Fundação Cultural de Curitiba. “Você quer me ferrar Judeu! Meus meninos estão sem fantasia e o carnaval já esta chegando”, bradava ele em uma das reuniões se dirigindo a Jaime Lerner, então prefeito de Curitiba. “O velho fez um estrago com sua voz potente. Batia com uma vara de bambu no chão, foi uma cena inesquecível”, conta Moysés.

Cidadão Samba

A fama de Mansueden crescia na mesma proporção de suas histórias e seus admiradores. A vida corria na intensidade dos sambas criados por ele. Composições que homenagearam nomes como Charles Chaplin, Jorge Amado e Leila Diniz, que depois de Dona Ilda era a musa inspiradora de Chocolate, o tornaram um dos maiores nomes do carnaval na capital do Paraná.

Mas a vida, intensa como um repique de bateria, resolveu calar a poderosa voz de Chocolate no dia 14 de dezembro de 1984. Ele “apenas pulou o muro antes de nós”, dizem os amigos. Já doente ele recebeu o título “Cidadão Samba”, conferido pela Comissão de Carnaval de Curitiba.

Seus feitos pelo carnaval de Curitiba foram notáveis. Mas, a influência que ele teve sobre toda uma geração do Capão da Imbuía também foi marcante. Em 03 de julho de 2007 a praça que fica na Rua Nivaldo Braga, esquina com a Rua Osmário de Lima ganhou o nome de Mansueden dos Santos Prudente.

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José Pires

É Jornalista idealizador do Parágrafo 2. Trabalhou como repórter na Região Metropolitana de Curitiba e como Assessor de Imprensa. Dirigiu o documentário Tabaco – As folhas da incerteza. Acredita que o Jornalismo é mais do que a reprodução dos fatos mais relevantes do dia

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